Vila Nova de Foz Côa

Manuel Joaquim Pires Daniel

Pires Daniel

Obra.

Após os 20 anos, a poesia e o teatro ocupavam-lhe os momentos que tivesse livres. Na poesia, ia atingindo uma colecção de cerca de 400 poemas, parte deles desde logo integrados em livros privados a que deu os nomes das quatro estações do ano ou, de outro modo, algumas pequenas colecções dedicadas à sua futura mulher, Maria Alice Daniel. Vários daqueles poemas foram publicados em diversos jornais nacionais, bem como em jornais brasileiros.

Nascimento

Manuel Joaquim Pires Daniel nasceu na Cidade de Mêda em 18 de Novembro de 1934

18 de Novembro de 1934

aspirante de finanças

Concorreu para aspirante de finanças e, em 1959, foi colocado na Repartição de Pombal, onde permaneceu dois anos, após o que foi transferido, a pedido, para a Repartição de Finanças de S. João da Pesqueira.

1959 - 1961

Chefe de Agrupamento

Integrou a direcção dos Bombeiros Voluntários da Meda e foi mais de 20 anos, presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa. Chefiou durante mais de 12 anos (1972 a 1985) o Agrupamento (CNE) de Vila Nova de Foz Côa, como Chefe de Agrupamento ou Chefe-Adjunto.

1972 - 1985

Licenciatura em Direito

Frequentou, como voluntário, a licenciatura em Direito, do curso de 1973-1978, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, por onde veio a ser licenciado a 16 de junho de 1978

1973-1978

Tesoureiro

Em 1986, havendo concursos de promoção na sua carreira profissional, apresentou-se simultaneamente às provas para tesoureiro de 2ª e de 1ª classe, facto inédito naqueles serviços, tendo obtido as mais altas classificações. Em consequência, veio a ser colocado onde pretendia, na Tesouraria da Fazenda Pública da Guarda, aí desempenhando também funções de Tesoureiro da Assembleia Distrital.

1986

Advocacia

Não querendo assumir o papel de aposentado, candidatou-se ao estágio da Ordem dos Advogados, que fez, em 1991 e 1992, no Porto e na comarca de Foz Côa, tendo nesta vindo a exercer essa profissão liberal.

1991 - 1992

Morte

Faleceu, vitima de COVID-19, no dia 22 de Janeiro de 2021 no Hospital Sousa Martins da Guarda.

22 de janeiro de 2021

O mar da minha terra é de granito, tem gigantes de pedra olhando o céu,
montanhas com saudades do infinito
e o puríssimo ar que Deus lhe deu.

Não tem praias, o mar; cresceram vinhas
no dorso pedregoso das encostas, onde as cepas fiéis conformam linhas como monjas orando de mãos postas.

Dois dias são guardados para deleite e os outros todos são para a labuta na terra que nos dá legumes, leite,
o pão e o vinho, vivo, e a fruta.

O mar da minha terra não é de água; é um sonho de pedras e chão duro
e da luta —raiz da nossa mágoa-
para aIcançarmos as praias do Futuro.

Sentia uma estranha consolação ouvindo a discussão do mulherio. Era qualquer coisa como o passado tornado presente. Elas barafustavam, gritavam, por causa de uma pinga de agua. Os velhos cântaros, com aspecto de quem há muito não servira, vinham pela rua acima, trazidos com uma certa falta de jeito.
Tinha-se perdido o habito de vir ao chafariz. O melhoramento da agua canalizada ao domicilio, instaurado há pouco mais de duas dezenas de anos, acabara com a velha quezília das mulheres que, então e a toda a hora, enxameavam o pequeno largo.
Mas qualquer coisa imprevista acabara de repente com o benefício do progresso. Canalização que se partiu, diziam uns. Outros, que não estariam tão bem informados, queriam saber se as águas da montanha devem ser tratadas com doses maciças de calcário, sem o que teriam de recorrer, volta e meia, ao velho chafariz…
A água, pensava o Simplício apreciando o panorama gratuito, a água vingava-se de a terem preso durante tantos anos. Cerca de vinte e tal. Uma prisão maior celular equivalente a um crime de morte, quando ela dava a vida!
Sentia, pois, uma certa consolação, um prazer cruel com este desfecho, ao ouvir o murmúrio das mulheres discutindo a vez ou a fazer rasgados elogios à santa paciência do chafariz secular. Mas ja assim mo reagia a sua cara-metade. Nem os sobrinhos. Esta maçada de trazer para casa, se o queriam, o precioso líquido que a Natureza por aí oferecia ao desbarato, não tinha graça nenhuma e era um verdadeiro aborrecimento.
Valia-lhes que o Verão ainda estava longe. Bonito seria quando a canícula apertasse e o próprio chafariz, tão requisitado agora, aparecesse a dar lágrimas por água, condoído com a sorte daquela gente…
Abriu a janela. O ar tinha a frescura da chuva que inundava os campos. Uma lufada de ar fresco percorria a terra e acariciava a cara das pessoas. Dentro dos cântaros, no chafariz, a água recantava. Uma cantilena que mal se ouvia. Sons graves, num contraponto das tonalidades agudas das vozes que barafustavam.

As mulheres, pelo menos, no seu entusiasmo, no calor da disputa, não davam conta do gralhar da água, desfazendo-se em sonoridades diversas nos velhos cântaros de lata.
Sentia-se renascer. Via agora, transposta para o presente, a vida que aquela terra tinha há cerca de trinta anos. Era assim mesmo. Punha-se, às vezes, a descrevê-la como a vira, mas isso pouco interessava a nova geração. O que interessava era o progresso. Desde que, ao abrir uma torneira, saísse água com pressão e abundância, estava passado o certificado diário de uma boa realidade que seria irreversível. Com o que todos se enganavam. ..
Aí tinha de novo, com indizível alegria, o barulhar das mulheres, a vozearia interminável, o destilar dos cântaros e o chafariz habitado. E verdade: habitado. Vira-o tantas vezes rodeado de moçoilas e mocetões, atirando o cântaro nun jogo que mais seria um bailado, no decorrer do qual o próprio cântaro, se era de barro, às vezes se partia! Outras, com a rapaziada numa dança de roda, ao som de um bandolim ou de uma gaita de beiços, quando os cravos e os manjericos sorriam das sacadas e das janelas…
«Ó enleio que te enleaste ao mais alto arcipreste, também me enleava a ti, mas tLi enleio não quiseste…»
Nesses tempos mo se falava de televisão, de carros desportivos, de saias curtas ou compridas, ou de festivais da canção. Os tangos de Carlos Gardel invadiam, quando muito, as cidades cosmopolitas. Em redor do chafariz, o mundo tinha um movimento mais lento e sossegado. As raparigas traziam um coração de oiro ao peito e traziam-no mesmo. Um ramo de manjerico tinha todo o perfume de um ramo de manjerico. Falava-se muito vagamente num desembarque dos Aliados nas terras distantes da Normandia, mas tudo isso vinha embrulhado em ecos tão difusos que quase ninguém os entendia.
«Poisa aqui, ó barboreta, poisa aqui no avental…
Poisa na menina Antónia
ólari-ló-lela,
que se quer casar …»
Simplício respirava o ar bom da Primavera chuvosa e revia, ali mesmo, no largo fronteiro, o entusiasmo de algumas noites de S. João. Limitada por uns ramos esguios de choupo, a cascata era o pretexto e o centro das atenções. A imagem do Santo pontificava. E da tília, que Ihe servia de dossel, descia um perfume suave que dava um encanto particular ao ambiente festivo.
«Fui ao S. João à Guarda, ó-ai da Guarda fui ao Bonfim… Estava tudo, tudo, tudo embandeirado
e com bandeiras,
com bandeiras de cetim.
Tim … tim.»
Ali estava o chafariz que bem o podia testemunhar. Ele assistiu, anos e anos seguidos, aos entusiasmos e aos amargos de boca de um bom punhado de gerações. Se falasse, conhecia a história de muita gente. E podia contar coisas que dariam livros e livros .
Agora mesmo, no chafariz, qualquer novidade alvoraçava o mulherio. Dizia-se que já tinham descoberto o defeito da canalização. No leito de uma ribeira, que atravessava na caminhada, o cano era como se fosse um afluente. Seria preciso substituir, na melhor altura do Verão, um enorme pedaço. Até Iá, o chafariz continuaria na ordem do dia como coisa muito importante. O progresso ia pagar, bem pagos, os juros que devia ao chafariz abandonado.
E quanto tempo demorarão as obras? – perguntou uma moça com o sorriso da sua
idade.
A resposta dava a entender que demorariam algum tempo.
– Tão pouco!
E tudo isto o consolava. Uma consolação indefinida, estranha, que os tempos de hoje não justificariam, mas Ihe enchia deveras o coração cansado.
– Fecha a janela. Não vês que faz corrente de ar?!… – pediu por detrás de si, a senhora Benedita, sua mulher.
Fez-lhe a vontade. Voltou para dentro. E sem o entender perfeitamente, tinha quase a impressão de que ele e o chafariz eram rima e a mesma pessoa…

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